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Livro:  Liberdade

Autor: Jonathan Franzen

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$29,90 (Edição Econômica, Livraria Cultura)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse e comentários (extraídos do site da editora):

Liberdade, quarto romance do norte-americano Jonathan Franzen, foi um dos mais festejados lançamentos literários de 2010. Publicado nove anos após As correções (vencedor do National Book Award), o livro foi saudado como um painel amplo e profundo da sociedade americana contemporânea e um triunfo da prosa refinada que já fazia a fama do autor.

A história de Liberdade gira ao redor de um trio de protagonistas. Walter e Patty Berglund formam, junto com os filhos adolescentes Joey e Jessica, uma típica família norte-americana liberal de classe média. Richard Katz é um roqueiro descolado que tenta fugir da fama que tanto buscava no passado. Os três se conhecem no final dos anos 1970, na Universidade de Minnesota, e a partir daí suas vidas se entrelaçam numa complexa relação de amizade, paixão, lealdade e traições que culminará com uma série de conflitos decisivos na primeira década do novo milênio, época em que o conceito de liberdade parece tão onipresente quanto fugidio.

Como em As correções, Franzen mergulha numa tragédia familiar para dissecar, com incrível detalhe e personagens tão reconhecíveis quanto surpreendentes, a psique e os sonhos da classe média norte-americana, explorando temas como o choque entre as políticas liberais e conservadoras no contexto social e privado, os males da superpopulação e das ameaças ecológicas, a crise do politicamente correto e os dilemas afetivos de uma geração cada vez mais conectada, individualista e globalizada.
Aclamado pela crítica, Liberdade também foi um fenômeno de mídia. A apresentadora Oprah Winfrey o selecionou para o seu popular círculo do livro, o Oprah’s Book Club, e a revista Time estampou sua capa com o romance, algo que não acontecia desde o ano 2000, quando Stephen King figurou no mesmo espaço.

“O romance mais comovente de Franzen – um livro que se revela ao mesmo tempo uma envolvente biografia de uma família problemática e um retrato incisivo do nosso tempo.” – Michiko Kakutani, The New York Times

“Não é à toa que Liberdade menciona Guerra e Paz em todas as letras. Ele pede espaço na prateleira ao lado do tipo de livro que as grandes feras escreviam. Livros que eram chamados de importantes. Que eram chamados de os grandes.” – Benjamin Alsup, Esquire

“O livro do ano, e do século.” – The Guardian

“Assim como As correções, Liberdade é uma obra-prima da ficção americana. Liberdade é um livro ainda mais rico e profundo – menos reluzente na superfície, porém mais seguro em seu método. Como todos os grandes romances, Liberdade não conta apenas uma história cativante. Ele ilumina, pela profunda inteligência moral do autor, um mundo que julgávamos conhecer.” – Sam Tanenhaus, The New York Times Book Review

Resenha

Este livro é comovente. Conforme conta-nos a sinopse, a história gira em torno de três personagens principais: Patty, Walter e Richard, amigos na juventude e com destinos entrelaçados por toda a vida. Tais personagens se conheceram ainda jovens, existiu uma forte relação afetiva entre Patty e os amigos Richard e Walter, mas ela se casa com o último. A partir daí o autor nos conta suas histórias, a relação entre o casal e destes com Richard, assim como as vidas de seus filhos, Jessica e Joey. Conhecemos cada um desses personagens de forma minuciosa e muito bem contada.

A narrativa é um pouco densa, levei uma semana pra ler as 605 páginas, porque muitas vezes parava para me afastar um pouco da história e assimilar as informações trazidas pelo Autor.

Em resumo, é um romance contemporâneo que conta a história dos personagens, de suas famílias e de seus relacionamentos, traça um perfil psicológico de cada um (há capítulos, por exemplo, que são narrados por Patty e outros são narrados em terceira pessoa trazendo um panorama de cada um dos envolvidos na trama).

Quase nunca isso me acontece, mas esse livro me deixou com muitas saudades dos personagens, seres humanos comuns, vivendo na sociedade atual, com todas as problemáticas, seja da juventude, seja da passagem para a fase adulta, muito bem demonstradas pelo Autor. Não tem como não se identificar com alguns dos problemas enfrentados por eles, as dúvidas, as frustrações, as emoções vividas, a tentativa de acertar, mas sem se saber se o acerto apontado pela sociedade é aquilo que realmente nos move internamente, nos basta como seres complexos que somos.

Além disso, Franzen faz uma crítica social muito forte. Traz algumas questões ambientais muito importantes (Walter é um personagem muito idealista com relação ao meio ambiente e o crescimento populacional), traz questões ligadas à aceitação social do indivíduo, ao consumismo desenfreado na sociedade capitalista, à luta pela sobrevivência na conjuntura social atual, às crises familiares pela concorrência externa de uma sociedade competitiva que influencia no interior das famílias.  Há, também, questões políticas, como algumas motivações escusas para a invasão do Iraque e a crise do governo americano após o fatídico onze de setembro.

Há também o amor. A tentativa do Autor de manifestar a sua visão do amor e de como ele é construído por anos, às vezes sem percebermos. A história de amor dos personagens principais é bem comovente. O amor em suas diversas facetas: pela família, pelos amigos, pelos companheiros… O que realmente esperamos do amor? Será que necessariamente o amor é aquilo que nos completa ou aquilo que nos torna mais livres?

E, afinal, o que realmente é ser livre na sociedade contemporânea? Somos livres para pensar, para adquirir bens, para amar quem quisermos? Até que ponto esse direito altamente buscado pelo liberalismo, de primeira geração, foi conquistado? Afinal, o que é a liberdade?

Talvez, nas entrelinhas, Jonathan Franzen, indique os caminhos do que para ele é ser livre. E, acima de tudo, nos traz de forma graciosa histórias de personagens vivos, reais, aquele que mora ali do lado, aquele que está aqui dentro, buscando a felicidade almejada, tão distante e tão perto.

Alguns trechos fantásticos do livro:

“Ainda assim, a sensação de injustiça se transformou num desconforto físico. Até mesmo mais real, de certa forma, que seu corpo dolorido, malcheiroso e suarento. A injustiça tinha uma forma, um peso, uma temperatura e uma textura, e um gosto medonho.” (p. 55)

“De onde vinha a pena de si mesma? E daquele tamanho descomunal? Segundo praticamente qualquer padrão, ela tinha uma vida muito boa. Todo dia, tinha o dia inteiro para encontrar algum modo decente e satisfatório de viver, mas ainda assim tudo que parecia conseguir com todas as suas escolhas e toda s sua liberdade era mais sofrimento. A autobiógrafa se vê quase forçada à conclusão de que tinha pena de si mesma por ser tão livre.” (p. 198)

“Os valores, quando ele tornou a fazer as contas por algum tempo mais tarde, lhe trouxeram uma estranha satisfação ressentida. Há dias tão ruins na vida que só quando pioram, só quando degeneram numa verdadeira orgia de infelicidade, podemos achar que foram de algum modo resgatados. ”  (p. 372)

Sem dúvidas, Tremor entrou para minha lista de leituras do ano. Graças a Jonathan Franzen e sua narrativa envolvente!

Murros no crânio! Não deixem de ler essa obra.

(Rose)

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Livro: Divergente

Autora: Verônica Roth

Editora: Rocco

Classificação: Sacudida no crânio (2/5 estrelas)

Preço: R$26,13 (Livraria Saraiva)

 Sinopse

Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto. A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é. E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.

Resenha:

Digam o que disserem, esse livro está com classificação ótima no Skoob, best-seller, fenômeno na internet, mas não me conquistou. A premissa é interessante. Trata-se de uma distopia: a sociedade futurista dividir-se-ia em cinco facções (Amizade, Abnegação, Erudição, Franqueza e Audácia), originadas após uma suposta guerra, e os jovens, ao completarem dezesseis anos, poderiam optar por uma das facções para seguirem suas vidas, mesmo que tivessem crescido em outra. A protagonista é Tris (Beatrice), na idade fatídica e com dúvidas sobre qual facção seguir, até descobrir em seu teste de aptidão que se trata de uma divergente, enquadrando-se no perfil de três das facções disponíveis.

A partir daí a trama se inicia, com uma pitada de romance, algumas intrigas, amizades e a tentativa da protagonista de conquistar o seu espaço na facção escolhida.

Não sei se a trama não me cativou por algum motivo específico, mas senti uma personagem principal um pouco forçada, não conseguia sentir as emoções de Tris na narrativa (algo que geralmente acontece).

A história não me surpreendeu. Algumas revelações finais acerca de seus pais, de seu par romântico (Quatro) e de outros personagens não foram novidade. Achei até bem previsíveis. E não gostei nem um pouco dos diálogos. Não sei se esse problema é da tradução para o português, mas os diálogos eram estranhos, sem sal, eu até diria fracos.

Se eu pudesse resumir em uma frase as minhas impressões sobre Divergente, eu diria que definitivamente a narrativa não me convenceu (considerada em seu conjunto: a distopia, os personagens, a problemática). A tentativa de passar alguma mensagem acerca das escolhas dos personagens, da existência de pessoas que preferem a abnegação à amizade, etc., na minha concepção tornou o enredo um pouco forçado…

Uma sociedade dividida em virtude de características prevalecentes na espécie humana, consideradas todas as suas complexidades, não me parece uma boa idéia. E a construção da Autora em torno disso, no intuito de ressaltar porque “fulano” pertence à franqueza (sim, porque é sincero demais), ficou tão cansativa…

Vou lhes dar um exemplo:

Diálogo de Tris (pertencia à Abnegação) e Christina (pertencia à Franqueza) (pag.: 89):

“-Perguntei se você se lembra de ter freqüentado alguma aula comigo – diz ela. – Não leve isso a mal, mas eu provavelmente não me lembraria de você mesmo que a gente tivesse. Para mim, todo mundo da Abnegação tinha a mesma aparência.(…) – Chris

Eu a encaro. Ela não precisava me lembrar disso. – Tris

– Desculpe, estou sendo mal educada? – pergunta ela. – Estou acostumada a simplesmente falar o que me vem à cabeça. (…)” – Chris

Vejam como é importante ressaltar que Chris é sincera demais porque pertencia à Franqueza. E isso ocorre no livro inteiro.

Ademais, vejam a observação da Tris, “ela não precisava me lembrar disso”, isso também é cansativo. Como é narrado em primeira pessoa, há sempre uma observação óbvia da protagonista, desnecessária, já que o leitor perceberia o que fosse ou não indelicado, no caso, e as demais situações para as quais a escritora pretende chamar atenção. Chato.

Achei o final até que bacana, certamente lerei a seqüência, especialmente para saber os caminhos que serão trilhados a partir de então, mas, confesso que não é um livro que me arrematou, que me deixou pensativa ou incomodada. Pelo menos não o primeiro volume. E também não simpatizei com os personagens. Enfim, podem me apedrejar, acho que sou minoria com relação à série. Assim que ler a continuação posto aqui minhas impressões e se mudei de idéia.

Um gostinho do enredo para aqueles que estão em dúvida quanto à leitura…

 

”- Os que culpavam a agressividade formaram a Amizade. […]

– Os que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição. […]

– Os que culpavam a duplicidade fundaram a Franqueza. […]

– Os que culpavam o egoísmo geraram a Abnegação. […]

– E os que culpavam a covardia se juntaram à Audácia.” – Página. 48

Em 2014 assistiremos a adaptação do livro para o cinema, ótimo para os fãs, nada empolgante para mim…

Dêem uma leve sacudida no crânio com Divergente!

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Livro:  As virgens suicidas

Autor: Jeffrey Eugenides

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$39,50 (Livraria Cultura)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse:

Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.

Resenha

As Virgens Suicidas conta a história de cinco irmãs que se suicidaram (isso não é spoiler, já que o próprio título nos diz) e apesar do quão trágico isso possa parecer, não é apenas um livro trágico, mas um romance muito bem contado, que nos transporta para vizinhança dessas meninas, inserindo-nos na sociedade da época de forma plena. Ao mesmo tempo nos transporta ao íntimo das meninas, ao mundo só delas. Realmente é o típico livro que nos cativa até suas páginas derradeiras.

Talvez isso ocorra um pouco pela curiosidade que o narrador nos incita a respeito da vida das meninas e um pouco pela nossa própria curiosidade em saber as razões dos suicídios.

O texto é narrado, aparentemente, por um dos rapazes pertencentes a um grupo que viveu na vizinhança das meninas Lisbon, agora já em sua fase adulta, e parece uma junção de retalhos, conquistada por meio de entrevistas e pertences antigos das garotas, além das observações da época. Esse grupo parece querer juntar as peças de um quebra cabeças a fim de desvendar as razões das mortes que nunca lhes fizeram sentido.

E é muito bacana ser inserido nesta história. Deparamo-nos com adolescentes dos anos 1970, seus dilemas, a repressão dos pais, os primeiros namoros, o sexo. As meninas Lisbon tinham pais bem severos que lhes cerceavam a liberdade necessária para uma adolescência normal. Isso fazia com que todos os meninos, ou a maioria deles, cultivassem uma curiosidade transmudada em amor platônico pelas garotas. Esses meninos, como disse, cresceram e se tornaram homens que carregaram consigo as dúvidas da infância e adolescência, especialmente pela morte trágica de todas as Lisbon.

Os suicídios iniciam-se com o de Cecilia, a primeira e aparentemente a única perturbada do grupo e tempos depois todas se vão. O mais interessante é a forma como o Autor abordou essas mortes. Não me pareceu algo pedante, sensacionalista. O modo como elas aconteceram foi narrado de forma bem natural, simples. E parece uma conseqüência lógica das vidas das garotas, trancadas em seus quartos, isoladas dos demais adolescentes, com discos e roupas proibidas, melancólicas.

A narrativa flui muito bem, é um romance poético, cheio de músicas. Podemos até ler esse livro ouvindo sua trilha sonora, descoberta durante a leitura (destaque para So far away – Caroline King, Dear Prudence – Beatles, Time in a Bottle– Jim Croce) e aí sim estaremos completamente inseridos na vida das Lisbon.

O Autor traz junto com a história, sem dúvida, os questionamentos acerca das motivações de um suicida adolescente, ou de várias meninas suicidas e, num primeiro momento, não conseguimos determinar essas razões. Talvez o Autor deixe para o leitor suas próprias conclusões. Mas também traz algumas críticas sociais, como a preocupação com as questões ambientais, com a falência da sociedade em que as meninas viviam, em muitos sentidos, a qual está intimamente ligada ao falecimento dessas garotas. É bem reflexiva esta história, muito bonita e melancólica como as Lisbon.

Trago um trecho, como sempre, para demonstrar a forma como o Autor a conta.

“Elas nos fizeram participar de sua própria loucura, porque não conseguíamos deixar de refazer seus passos, repassar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia até nós. Não conseguíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a tranqüilidade. E tivemos que esfregar os focinhos nos últimos rastros que elas deixaram, as marcas de lama no chão, as malas que serviram de degrau, tivemos de respirar para sempre o ar dos cômodos onde elas se mataram.” (p. 178 – Kobo)

O livro foi adaptado para o cinema em 1999, filme com o mesmo título dirigido por Sofia Coppola e estrelado pela linda Kirsten Dunst e dizem que o filme é bem fiel ao livro. Ainda não assisti, mas pretendo fazê-lo e coloco minhas impressões nos comentários.

Alguns murros no crânio, ingressem no mundo das Lisbon e tomem pelo menos cinco!

 (Rose)

 

ImageLivro:  O oceano no fim do caminho

Autor: Neil Gaiman

Editora: Intrínseca

Preço: R$18,90 (Submarino)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse:

“As pessoas pensam que sonhos não são reais apenas porque não são feitos de matéria, de partículas. Sonhos são reais, mas eles são feitos de pontos de vista, de imagens, de memórias e trocadilhos, e de esperanças perdidas.”Neil Gaiman

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo.

Resenha

O Oceano no Fim do Caminho é uma fábula extraordinária e reflexiva. O personagem principal (o qual não tem nome) passava por um dia difícil, um ente havia falecido e resolve mudar o caminho, trilhar em direção à sua antiga moradia e à antiga estradinha rural que o levaria à fazenda das Hempstock.

Ali, o personagem reencontra a sua infância, defronte ao lago da fazenda e são essas lembranças que tomarão toda a narrativa. A história é narrada em primeira pessoa e tem seu ponto inicial com a morte de um minerador de opala para o qual o pai do menino havia alugado um quarto de sua casa. Esse homem comete suicídio e a partir dessa morte uma criatura é provocada e invade a vizinhança, tentando dar aos homens dali aquilo que eles mais desejam.

Nesse contexto, conhecemos a família Hempstock, uma família de mulheres, representada pela menina Lettie, sua mãe e avó. Essas mulheres, aparentemente, tem dons especiais: são sensitivas, percebem as criaturas não humanas que existem na natureza. De alguma forma, a criatura entrará na vida do protagonista e teremos um grande conto de fadas, misturado à realidade da infância do personagem, tudo do ponto de vista de uma criança de sete anos.

É parcialmente uma autobiografia de Neil Gaiman, contada por meio de fábula, o que nos leva a admirar a forma como ele trouxe problemáticas de sua infância de uma forma tão mágica, por meio de uma fantasia muito bem contada. Sentimos os medos de infância de Gaiman, percebemos os problemas dele como adulto, a partir da forma adulta do personagem, mas ao mesmo nos deparamos com uma história doce, fantástica, leve. Conhecemos o menino Gaiman, apaixonado pela leitura, introspectivo, sem amigos, mas com uma imaginação exemplar e cheio de sonhos.

É realmente um livro obrigatório. Especialmente àqueles que gostam dessa mistura entre fantasia e realidade e dos questionamentos que ela nos traz. O mundo visto pela criança é um charme da narrativa. Percebemos o que acontece na vida do garoto, mas isso é passado pelo ponto de vista dele para que tiremos nossas conclusões, o que enriquece a história.

A vida torna-se muito mais bonita se alicerçada por nossos sonhos. Porque muitos deles são deixados para trás quando nos tornamos adultos. Mas mal sabemos que somos adultos cheios de medos, sonhos e fantasias de criança escondidos em algum lugar dentro de nós. Basta busca logo ali e trazer a beleza de volta. Sem dúvida um dos melhores do gênero que já li. Encanto por Gaiman!

Trechos escolhidos, com muita dificuldade porque são inúmeros os trechos que gostaria de transcrever aqui…

“Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu.  As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.” (p. 129)

“Ela chorava e aquilo me deixou constrangido. Eu não sabia o que fazer quando os adultos choravam. Era algo que só tinha visto duas vezes na vida: eu vi meus avós chorarem quando minha tia morreu, no hospital, e vi minha mãe chorar. Eu sabia que os adultos não deveriam chorar, eles não tinham mães que os consolassem.” (p. 141)

“Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer nas coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz.” (p. 169)

Murro no crânio! E voltem com a simplicidade que impregnar nele! Leiam O Oceano no Fim do Caminho.

(Rose)

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Livro: A menina que roubava livros

Autor: Marcus Susak

Editora: Instrínseca

Preço: R$ 22,41 (Lojas Americanas)

Classificação: Murro no crânio

Sinopse

Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história, em “A Menina que Roubava Livros”, livro há mais de um ano na lista dos mais vendidos do “The New York Times”.
Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido da sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona de casa rabugenta. Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, “O Manual do Coveiro”. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro de vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram estes livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto a sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar.

Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa narradora. Um dia todos irão conhece-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos. Tem que valer a pena.

Resenha:

Encantador. Essa palavra define com precisão o aludido livro. Esperei até um tempo depois de ler para escrever sobre ele porque ao fim, num rio de lágrimas (sim, os mais emotivos derramarão algumas), talvez fosse influenciada pelas emoções e não conseguiria descrevê-lo da melhor forma.

A menina que roubava livros, Liezel, me conquistou na primeira página, não conseguia parar de ler. Geralmente tenho grande interesse por narrativas relacionadas à Segunda Guerra Mundial, mas esta tem um diferencial. A guerra é demonstrada  pela perspectiva dos alemães à margem do regime de Hitler, aqueles que sofreram com a guerra e até mesmo aqueles relutantes às ideias do Führer.

O mais inusitado da história, sob minha ótica, é a narradora. A morte. Tenho uma queda por livros assim, desde o meu primeiro deslumbramento com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (neste o personagem narrador já havia passado desta para a melhor) e toda vez que a morte caminha entre os personagens de forma simples, natural, despretensiosa, me encanto pela história (por mais mórbido que isso possa parecer). E a morte no livro de Marcus Susak é ímpar: de tudo sabe, conhece bem os seres humanos e do que eles são capazes. Em alguns momentos, antecipa no decorrer da narrativa o fim de alguns personagens (o que, me parece, desagradou alguns, mas para mim é brilhante e dinâmico). É irônica e trágica. Isso é sensacional!

O livro me fez sorrir, chorar, me encantar com os personagens, com destaque para o menino Rudy, único, cada gesto desta criança é um ensinamento para a vida. A doce Liezel me fez lembrar do meu amor pela leitura desde criança e da mágica de ouvir um contador de histórias. Seus pais adotivos nos mostram o sofrimento dos alemães comuns em meio à guerra. Vislumbramos a tragédia dos judeus, as desigualdades sociais, a fome, tudo misturado às brincadeiras da protagonista com outras crianças e à mágica da leitura. Sensacional. Este livro deve integrar aquela lista dos que deveríamos ler antes de encontramos com a morte. E ela ali está para nos mostrar que isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde.

 Um trecho bem do início do livro para dar o gostinho da narrativa…

 “EIS UM PEQUENO FATO

Você vai morrer.

Com absoluta sinceridade, tento ser otimista a respeito de todo esse assunto, embora a maioria das pessoas sinta-se impedida de acreditar em mim, sejam quais forem meus protestos. Por favor, confie em mim. Decididamente, eu sei ser animada, sei ser amável. Agradável. Afável. E esses são apenas os As. Só não me peça para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

(…)

Eu poderia me apresentar apropriadamente, mas, na verdade, isso não é necessário. Você me conhecerá o suficiente e bem depressa, dependendo de uma gama diversificada de variáveis. Basta dizer que, em algum ponto do tempo, eu me erguerei sobre você, com toda a cordialidade possível. Sua alma estará em meus braços. Haverá uma cor pousada em meu ombro. E levarei você embora gentilmente.”

 Sensacional, não??

Em janeiro teremos a reprodução desta maravilha nas telonas, espero que não seja banalizada e que me emocione como as páginas do livro.

Esmurrem seus crânios, leiam “A Menina que roubava livros”!

Todo dia

Publicado: 27 de dezembro de 2013 em Resenhas livros
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Livro:  Todo dia

Autor: David Levithan

Editora: Galera Record

Preço: R$25,40 (Livraria Saraiva)

Classificação : Pancada no crânio

Sinopse:

Neste novo romance, David Levithan leva a criatividade a outro patamar. Seu protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.

Resenha

Eu gostei muito da narrativa desse livro. É simples, objetiva, leve. Daquelas que chegamos ao fim num piscar de olhos (o livro tem 280 páginas). O livro conta a história de A, uma pessoa diferente, que acorda todos os dias em um corpo diferente. Apesar de narrado em primeira pessoa e a tradução constar como gênero masculino, A não tem gênero. É uma pessoa de 16 anos que por algum motivo não tem um corpo para habitar. Por isso, deve acordar todos os dias em corpos diferentes e viver as experiências de seus hospedeiros, até dormir e acordar em outra matéria.

Numa manhã, no corpo de um garoto, A conhece Rhiannon, uma garota, e se apaixona. A partir daí, A começa uma busca incessante pelo seu amor. Acorda todos os dias e independente da distância ou do corpo que está, tenta encontrá-la.

O livro guarda em si algumas reflexões.  Percebemos que o Autor tem a intenção de trazê-las ao leitor em algumas passagens. A questão de traçar um estereótipo, de rotular as pessoas por aquilo que elas aparentam ser é bem evidente. E de como nos importamos com as aparências para, sobretudo, traçarmos se iremos amar, odiar, ou até nos aproximar de determinada pessoa. Ele quebra esses paradigmas, alertando que ao amor não importa o gênero, a cor, o peso na balança. O amor entende e vê aquilo que está por trás de tudo isso, aquilo que verdadeiramente somos, despidos de nossa carcaça.

Também nos deparamos com a questão da importância de vivermos o presente. Todo dia não é apenas alusão ao fato do personagem acordar todo dia em um corpo diferente, mas também ao fato de que a ele resta viver um dia de cada vez. Sem planos para o futuro, sem contar com as histórias do passado. A ele resta o dia que está por vir e a busca por vivê-lo ao lado de seu amor da forma mais pura que conseguir.

A certamente encantará o leitor. Não por ele ser um protagonista sem defeitos, que abdica de suas aspirações por amor. Mas por ele (a) ser diferente, pelas circunstância de sua vida diferenciada, e, ao mesmo tempo ser igual. Igual a todos nós, com seus defeitos, questionamentos (muitas vezes ele pensa em atos que não seriam “bons”, mas sopesa suas conseqüências) e acima de tudo por seu desejo simples e puro de ser feliz.

Um trecho da narrativa leve de David Levithan…

“Enquanto cochilamos, sinto uma coisa que nunca senti. Uma proximidade que não é apenas física. Uma conexão que desafia o fato de que acabamos de nos conhecer. Um sentimento que só pode vir da mais eufórica das sensações: a de pertencer a alguém.”

Leiam Todo dia e tomem uma pancada no crânio (enquanto ainda estiver por aí)…

(Rose)

 

O Grande Gatsby

Publicado: 23 de dezembro de 2013 em Sem categoria
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Livro: O Grande Gatsby – The Great Gatsby – Edição Bilingue

Autor: F. Scott Fitzgerald

Editora: Landmark

Preço: R$30,00 (Livraria Saraiva)

Classificação: Murro no crânio

Sinopse:

Considerado pela “Modern Library” como segundo melhor romance de língua inglesa do século XX, e por seu autor como ‘algo novo – algo extraordinário, belo e simples’ a EDITORA LANDMARK lança em uma exclusiva edição bilíngue de luxo, em capa dura, “O Grande Gatsby”, obra-prima do escritor norte- americano F. Scott Fitzgerald.

Esta obra, uma das mais representativas do romance norte-americano, descreve a vida da alta sociedade, ambientado em Nova York e no litoral de Long Island, durante o verão de 1922, através de uma aguda reflexão crítica. Além de destacar brilhantemente uma sociedade obcecada por riqueza e status, o romance também apresenta os problemas da economia durante a Primeira Guerra Mundial, a proibição de bebidas alcoólicas, o aumento do crime organizado com o contrabando de bebidas, surgimento de novos milionários e a história de amor entre Jay Gatsby e Daisy.

Jay Gatsby e Daisy se conhecem cinco anos antes do começo da história. Ela é uma bela jovem Louisiana e Gatsby um jovem oficial da marinha sem qualquer riqueza, ambos se apaixonam. Porém enquanto Gatsby cumpre seu dever como oficial na Primeira Guerra, Daisy se casa com o bruto, intolerante, mas milionário Tom Buchanan. Após o término da Guerra Gatsby se dedica inteiramente a reconquistar o amor de Daisy. Ele se empenha em fazer fortuna, por qualquer meio que seja, e se torna um milionário independente. Em seguida, compra uma mansão vizinha à mansão de Daisy e seu marido, promove muitas festas com esperança de que Daisy compareça a uma delas. Quando finalmente eles se encontram, acontecimentos trágicos são postos em movimento. A história é contada através dos olhos do amigo e vizinho onipresente de Gatsby, Nick Carraway, que mora em uma casa humilde próxima a mansão e se indaga sobre a exuberância, prepotência e falta de cultura das demais personagens.

Com destaque para o ritmo do Jazz da época, “O Grande Gatsby” inicialmente não se popularizou em sua primeira edição, mas nas edições subsequentes tornou-se um dos maiores sucessos de F. Scott Fitzgerald, principalmente, após a morte do autor, quando foi relançado e difundiu-se rapidamente. Hoje em dia, “O Grande Gatsby” é considerado o Grande Romance Americano e de leitura padrão em escolas e universidades de todo mundo sobre a literatura dos Estados Unidos.

Foi adaptado seis vezes para o cinema, a primeira versão em 1926, estrelada por Warner Baxter e Lois Wilson (essa adaptação se perdeu e há apenas um trailer no arquivo nacional norte-americano). A versão mais popular é do diretor Jack Clayton, de 1974, com roteiro de Francis Coppola e tendo Robert Redford no papel principal. Em 2013 a mais recente versão produzida pela Warner Bros e dirigida pelo aclamado Baz Luhrmann, com estreia prevista para junho de 2013 nos cinemas brasileiros, tem os atores Leonardo Dicaprio (Jay Gatsby), Carey Mulligan (Daisy Buchanan), Tobey Maguire (Nick Carraway) e Joel Edgerton (Tom Buchanan) no elenco. Além das adaptações para o cinema, também foi adaptado para teatro, radio novelas, graphic novels, ballet e ópera, composta por John Harbison, cuja estreia ocorreu em 1999 pela New York Metropolitan Opera.

Resenha:

O livro é um clássico que assim merece ser denominado. Não apenas pela antiguidade da publicação, mas clássico no sentido de algo que deve servir de modelo, inspiração às gerações posteriores. Eu diria que este é um verdadeiro romance.

O Grande Gatsby é um romance trágico, dramático, arrebatador. E não tem como não se apaixonar por Gatsby e pela história de amor por ele construída. Gatsby era um homem sem posses que se apaixonou por Daisy, uma jovem rica e bela que cruzou o seu caminho por um acaso não planejado. Ele aspirava conquistar seus sonhos, “ser alguém”, mas Daisy surgiu em sua vida e mudou sua história para sempre. Gatsby é enviado à Primeira Guerra Mundial, sua amada casa-se com um homem muito rico e anos depois ele está disposto a reconquistá-la.

A narrativa ocorre em primeira pessoa. O personagem que narra é Nick Carraway, vizinho de Gatsby, curioso por saber quem é o homem misterioso residente na mansão próxima à sua humilde casa. Nick ouvira muitas histórias acerca daquele homem e um dia é convidado para uma das grandes festas realizadas por Gatsby. A partir daí, com uma narrativa leve, descritiva e envolvente, descobrimos as ligações entre os personagens e entramos no mundo de Gatsby através de Nick.

E o ponto de vista de Nick é muito interessante, o que me faz pensá-lo como um personagem coadjuvante fundamental na história, daqueles que se destacam tanto quanto o próprio protagonista. Porque Nick traz consigo um senso crítico sem o qual a história não seria a mesma. Participar da narrativa pelos olhos de Nick é muito mais emocionante.

É uma história de amor, mas acima de tudo é uma forte crítica social. Porque a partir do romance, imergimos na sociedade novaiorquina da época (ano de 1922), com os deslumbres e defeitos de uma grande metrópole e de seus habitantes. Também nos deparamos com grandes questionamentos acerca dos valores da alta sociedade, do materialismo, dos interesses dos personagens inseridos na trama e de como Gatsby ingressou em um mundo ao qual não pertencia para conquistar o amor de Daisy.

O que mais me comoveu e me deixou reflexiva é que Gatsby idealizou uma história (conquistar seu grande amor e encontrar a felicidade ao seu lado) e agarrou-se nessa fantasia para justificar todas as suas ações.

A vida muitas vezes despreza nossos sonhos, nossos desejos mais ocultos e flui como a água corrente de um rio. E aquela gota que vimos há um minuto já não é mais mesma que respinga nesse instante. E nunca mais será. E assim como Nick alerta Gatsby em uma passagem do livro, o passado não volta… Algumas situações do passado podem se repetir, mas as pessoas nelas envolvidas já não mais as mesmas, aquilo que gira em torno delas também mudou. Acho que essa é uma das maiores mensagens de Gatsby, de forma sutil ela está ali para nos alertar que o passado realmente ficou em algum momento de nossas histórias e o que importa é o que teremos e seremos daqui pra frente.

Gatsby, portanto,  não só é uma crítica social, mas uma análise do interior humano e de como muitas vezes nos apegamos a situações das quais já não temos mais controle.

Amei esse livro. Um comentário do The Guardian resume bem o que sinto ao descrevê-lo “Se algum dia você foi jovem e se apaixonou, Fitzgerald escreveu O grande Gatsby só para você.” É o típico romance com elementos que todo romance bem contado deve ter.

Essa edição é um amor à parte, é bilíngüe, tem a foto do filme (o que para muitos pode ser ruim, mas eu gostei, especialmente pelo Di Caprio, (risos)).

Aliás, também assisti ao filme dirigido por Braz Luhrmann (a quarta versão do clássico em filme) e estrelado por Leonardo Di Caprio (parceira já conhecida em Romeu e Julieta) e gostei da forma como a história foi contada: os personagens, as cores, a trilha sonora, a interpretação de Di Caprio (imaginei “aquele” sorriso de Gatsby). Vale a pena assistir. Mas senti falta de algumas passagens importantes do livro como do romance de Nick e Jordan Baker. Assim, leiam o livro antes, se pretendem assistir ao filme.

Trechos selecionados do livro:

“Cada um de nós suspeita possuir pelo menos uma virtude básica, e a minha é a seguinte: sou um dos poucos homens honestos que jamais conheci.” (pag. 44, cap. 3 – Nick).

“E enquanto eu refletia sobre o velho mundo desconhecido, pensei no espanto de Gatsby quando, pela primeira vez, divisou a luz verde na extremidade do cais de Daisy. Ele trilhara um longo caminho até chegar àquele relvado azul e seus sonhos devem ter parecidos tão próximos que ele não poderia deixar de alcançá-los. Não sabia que eles já haviam ficado para trás, em algum lugar da vasta obscuridade que se expandia para além da cidade, onde os campos escuros da república se estendiam sob a noite”. (Capítulo 9, pag. 38, Nick)

Murros e mais murros em seus crânios com a história de Gatsby!

(Rose)

ImageLivro: Gone Girl: A Novel

Autor: Gillian Flynn

Idioma: Inglês

Edição: Kindle

Páginas: 515

Preço: R$ 19,59 (não sei por que, consegui comprar por R$ 13,96… acho que era uma promoção relâmpago da amazon.com.br)

Classificação: Murro no Crânio!

Uau. Que livro! Comecei a ler a versão em inglês do livro Garota Exemplar por recomendação da Rose, sem querer saber nada da história (morro de medo de spoilers!), apenas com a indicação de que era bom, muito bom.

Infelizmente, passei o olho sobre uma crítica no Skoob e li a palavra “surpreendente”… Péssima palavra para mim, já que minha mente começa a imaginar todas as hipóteses e possibilidades de reviravoltas quando lê essa palavra, e o livro acaba deixando de ser, de fato, supreendente.

No entanto… surpresa! O livro continuou surpreendente! (não se preocupem, nunca mais usarei essa palavra em nenhuma resenha, crítica ou comentário de livro, prometo ;))

Então, em suma, Gone Girl é um livro surpreendente, mas é mais que isso: a trama é interessante, os personagens (Nick Dunne e sua esposa, Amazing Amy Elliot Dunne) são profundos e cheios de nuances, com qualidades e defeitos reais, fazendo com que você os ame e os odeie, em turnos.

Confesso que esperava um outro final, mas depois de pensar melhor, achei genial. Não vou entrar em detalhes para não estragar a leitura (argh, spoilers!), mas espero que minhas impressões sobre esse livro o faça lê-lo. Os outros dois livros da Gillian (essa sim, garota exemplar!) estão na minha lista. Gone girl… um murro no crânio!

Algumas passagens:

“It seemed to me that there was nothing new to be discovered ever again. Our society was utterly, ruinously derivative (although the word derivative as a criticismo is itself derivative). We were the first human beings who would never see anything for the first time. Wes tare at the Wonders of the world, dull-eyed, underwhelmed. Mona Lisa, the Pyramids, the Empire State Building. Jungle animals on attack, ancient icebergs collapsing, volcanoes erupting. I can’t recall a single amazing thing I have seen firsthand that I didn’t immediately reference to a movie or TV show. A fucking commercial. You know the awful singsong of the blasé: Seeeen it. I’ve literally seen it all, and the worst thing, the thing that makes me want to blow my brain out, is: The secondhand experience is always better. The image is crisper, the view is keener, the câmera angle and the soundtrack manipulate my emotions in a way reality can’t anymore. I don’t know thatwe are actually human at this point, those o fus who are like mosto f us, who grew up with TV and movies and now the internet. If we are betrayed, we know the word to say. If we want to play the stud or the smart-ass or the fool, we know the words to say. We are all working from the same dog-eared script. It’s a very difficult  era in which to be a person, just a real, actual person, instead of a collection of personality traits selected from an endless Automat of characters.”

“My thank-yous always come out rather labored. I often don’t give them at all. People do what they’re supposed to do and then wait for you to pile on the appreciation – they’re like frozen-yogurt employees who put out cups for tips.”

(J)

1Q84

Publicado: 17 de dezembro de 2013 em Resenhas livros
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Livro: 1Q84

Autor: Haruki Murakami

Editora: Alfaguara

Sinopse

Duas histórias em paralelo se cruzam num enredo de mistério e eventos surreais. De um lado, Aomame, uma assassina profissional, suspeita estar em um mundo paralelo. De outro, Tengo, um aspirante a escritor, se envolve com um projeto de reescrever um livro misterioso.

Resenha:

O livro 1 da Trilogia 1Q84, publicada entre 2009 e 2010 inicialmente não me encantou. A forma da narrativa me pareceu interessante, reservando aos dois personagens principais capítulos alternados (como muitos outros que li recentemente), mas, um pouco cansativa no começo. O livro apresenta-nos as histórias paralelas de Aomame e Tengo. Aomame é uma personagem incomum, certamente. Um dos primeiros contatos com a personagem traçam uma assassina fria e ardilosa em um de seus crimes. Tengo, por sua vez, é um professor de curso preparatório e amante da literatura, além de aspirante a romancista. Os dois, aparentemente, carregam traumas de infância, dos quais não conseguiram se libertar de forma plena, o que, de certa forma, parece incidir nas suas vidas adultas, além de terem em comum a solidão.

Esse primeiro desencanto mutou-se no decorrer do livro, ao surgimento dos mistérios que nortearão a trilogia, assim como de personagens bem interessantes. Tengo é encarregado de reescrever um livro de uma garota de 17 anos, Fukaeri, a Crisálida de Ar, e a partir daí se envolve na história não só do livro, mas da própria escritora. Aomame, após ingressar numa passagem subterrânea para suprir um atraso casual, ingressa num mundo parcialmente diferente daquele que conhecia.

Confesso que precisei me arrastar algumas páginas para me atrair pela história, mas que do meio do livro ao fim, precisei, ao contrário, devorar as páginas restantes para “desvendar” alguns mistérios. Ok, em quase nenhum deles obtive êxito, já que como toda série de livros, há que se aguçar a curiosidade do leitor para os volumes posteriores, mas criei na minha mente algumas possibilidades viáveis e fiquei muito curiosa para a leitura do segundo livro da série.

A união de fantasia e realidade do livro é bem interessante, assim como as alusões à literatura e ao próprio 1984 do Orwel, um dos meus livros preferidos, diga-se de passagem. Algumas aparentes críticas sociais relacionadas à violência contra a mulher, contra a criança, abuso sexual, crises familiares, seitas religiosas, são trazidas junto com a trama, algo que enriquece a leitura e a reflexão sobre o livro. As duas luas que brilham no céu de Aomame e os pequenos seres que aparecem nos diálogos são mistérios à parte, que deixam o leitor confuso quanto à viabilidade dos acontecimentos.

Uma pitada da bela forma de escrever de Murakami…

“Emocionalmente, você já está preparado para reescrever Crisálida de ar. Para mim, isso está mais que claro. O fato de o plano ser arriscado ou de ferir a ética não tem a mínima importância. Tengo! Você está morrendo de vontade de reescrever, de próprio punho, a Crisálida de ar. (…) E é aí que existe a diferença entre a literatura e as ações. Bem ou mal, existem coisas que acontecem por motivações que vão além daquelas que o dinheiro traz. Volte para casa e descubra o que você realmente quer. Fique de frente para o espelho e observe atentamente o seu rosto. Você verá que isso que eu acabei de dizer já está escrito na sua cara. ” (p. 45)

Particularmente gosto dessas parciais fantasias, aqueles livros que nos afastam da realidade e nos transportam para mundos que, embora pareçam reais, tem uma pitada de mágica e mistério. Não li outros livros do Autor, mas 1Q84 me motivou a tanto. Não creio que seja um dos melhores livros que li, aqueles que trombam com nosso crânio de forma brutal e deixam a lesão para sempre. Não, 1Q84 não é dessas obras. Mas vale a leitura e a sacudida na mente assoberbada do cotidiano.

Esperemos as próximas sacudidas!

(Rose)

Garota Exemplar

Publicado: 17 de dezembro de 2013 em Resenhas livros
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Livro: Garota exemplar
Autor: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca

Sinopse
Uma das mais aclamadas escritoras de suspense da atualidade, Gillian Flynn apresenta um relato perturbador sobre um casamento em crise. Com 4 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo – o maior sucesso editorial do ano, atrás apenas da Trilogia Cinquenta tons de cinza –, “Garota Exemplar” alia humor perspicaz a uma narrativa eletrizante. O resultado é uma atmosfera de dúvidas que faz o leitor mudar de opinião a cada capítulo. Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino? Com sua irmã gêmea Margo a seu lado, Nick afirma inocência. O problema é: se não foi Nick, onde está Amy? E por que todas as pistas apontam para ele?

Resenha

Comecei a ler Garota Exemplar com algumas expectativas, já que tinha visto boas avaliações do livro no Skoob, mas sem ler qualquer sinopse. Assim, à primeira vista, o livro me pareceu uma comédia romântica, muito bem narrada pelos protagonistas Nick e Amy. Em primeira pessoa e por capítulos alternados, conhecíamos o ponto de vista dos acontecimentos por meio de cada um deles. Amy, pelo seu diário e Nick pela narração contemporânea aos fatos. Porém, ao passar de dois ou três capítulos mudam-se os rumos da historia e o livro desenvolve-se em torno do desaparecimento de Amy, uma garota rica que se casou aparentemente com o homem que considerava ideal. Um casamento inicialmente perfeito que se transformou em pesadelo cotidiano, em parte por conta da rotina de convivência do casal por cinco anos e em parte por conta da revelação da verdadeira face dessas pessoas durante a convivência marital. O livro é muito interessante. Prende o leitor por todos os capítulos, curioso para saber o contexto fático e as razões do desaparecimento de Amy. Os personagens cativam e repulsam o leitor praticamente no mesmo instante. Os caminhos mentais trilhados perdem-se a cada revelação das pistas que levarão ao deslinde da situação de suspense do personagem Nick, principal suspeito do sumiço de sua esposa. As revelações psicológicas dos personagens (lembrem-se que a narrativa é em primeira pessoa) são atormentadoras e surpreendentes. Acho que o aspecto psicológico do livro foi o que mais me chamou a atenção. A obra nos leva à reflexão sobre as loucuras, a convivência, o amor, o casamento e os valores de cada ser humano. Porque conviver é tão difícil, como a herança cultural de cada um influencia nisso. Não acho que todo casamento mata, como a chamada do livro propõe (vejam no site http://www.garotaexemplar.com.br), mas acho que nós matamos o casamento diariamente se deixamos a rotina prevalecer, se nos apegamos aos defeitos dos parceiros mais do que às suas qualidades, se não nos revelamos tal qual somos desde o primeiro momento em que conhecemos os outros. Adorei esse livro!
Trechos escolhidos para dar um gostinho da narrativa da autora…

“Quando somos traídos, sabemos quais palavras dizer; quando um ente querido morre, sabemos quais palavras dizer. Quando queremos bancar o fodão, o espertinho ou o idiota, sabemos quais palavras dizer. Todos trabalhamos a partir do mesmo roteiro gasto.
É uma época muito difícil para ser uma pessoa, apenas uma pessoa real, de verdade, em vez de uma coleção de traços de personalidade escolhidos em uma interminável máquina automática de personagens.
E se todos nós estávamos atuando, não pode existir algo como uma alma gêmea, porque não temos almas genuínas.
Chegara ao ponto em que parecia que nada importava, pois não sou uma pessoa de verdade, e ninguém mais é.
Eu teria feito qualquer coisa para me sentir real novamente.” (Nick, pg. 08, Capítulo “Um dia sumida”)

Querem um livro do qual não conseguirão desprender-se até a última página? Leiam Garota Exemplar e sacudam fortemente os crânios!