Arquivo de janeiro, 2014

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Livro:  Liberdade

Autor: Jonathan Franzen

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$29,90 (Edição Econômica, Livraria Cultura)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse e comentários (extraídos do site da editora):

Liberdade, quarto romance do norte-americano Jonathan Franzen, foi um dos mais festejados lançamentos literários de 2010. Publicado nove anos após As correções (vencedor do National Book Award), o livro foi saudado como um painel amplo e profundo da sociedade americana contemporânea e um triunfo da prosa refinada que já fazia a fama do autor.

A história de Liberdade gira ao redor de um trio de protagonistas. Walter e Patty Berglund formam, junto com os filhos adolescentes Joey e Jessica, uma típica família norte-americana liberal de classe média. Richard Katz é um roqueiro descolado que tenta fugir da fama que tanto buscava no passado. Os três se conhecem no final dos anos 1970, na Universidade de Minnesota, e a partir daí suas vidas se entrelaçam numa complexa relação de amizade, paixão, lealdade e traições que culminará com uma série de conflitos decisivos na primeira década do novo milênio, época em que o conceito de liberdade parece tão onipresente quanto fugidio.

Como em As correções, Franzen mergulha numa tragédia familiar para dissecar, com incrível detalhe e personagens tão reconhecíveis quanto surpreendentes, a psique e os sonhos da classe média norte-americana, explorando temas como o choque entre as políticas liberais e conservadoras no contexto social e privado, os males da superpopulação e das ameaças ecológicas, a crise do politicamente correto e os dilemas afetivos de uma geração cada vez mais conectada, individualista e globalizada.
Aclamado pela crítica, Liberdade também foi um fenômeno de mídia. A apresentadora Oprah Winfrey o selecionou para o seu popular círculo do livro, o Oprah’s Book Club, e a revista Time estampou sua capa com o romance, algo que não acontecia desde o ano 2000, quando Stephen King figurou no mesmo espaço.

“O romance mais comovente de Franzen – um livro que se revela ao mesmo tempo uma envolvente biografia de uma família problemática e um retrato incisivo do nosso tempo.” – Michiko Kakutani, The New York Times

“Não é à toa que Liberdade menciona Guerra e Paz em todas as letras. Ele pede espaço na prateleira ao lado do tipo de livro que as grandes feras escreviam. Livros que eram chamados de importantes. Que eram chamados de os grandes.” – Benjamin Alsup, Esquire

“O livro do ano, e do século.” – The Guardian

“Assim como As correções, Liberdade é uma obra-prima da ficção americana. Liberdade é um livro ainda mais rico e profundo – menos reluzente na superfície, porém mais seguro em seu método. Como todos os grandes romances, Liberdade não conta apenas uma história cativante. Ele ilumina, pela profunda inteligência moral do autor, um mundo que julgávamos conhecer.” – Sam Tanenhaus, The New York Times Book Review

Resenha

Este livro é comovente. Conforme conta-nos a sinopse, a história gira em torno de três personagens principais: Patty, Walter e Richard, amigos na juventude e com destinos entrelaçados por toda a vida. Tais personagens se conheceram ainda jovens, existiu uma forte relação afetiva entre Patty e os amigos Richard e Walter, mas ela se casa com o último. A partir daí o autor nos conta suas histórias, a relação entre o casal e destes com Richard, assim como as vidas de seus filhos, Jessica e Joey. Conhecemos cada um desses personagens de forma minuciosa e muito bem contada.

A narrativa é um pouco densa, levei uma semana pra ler as 605 páginas, porque muitas vezes parava para me afastar um pouco da história e assimilar as informações trazidas pelo Autor.

Em resumo, é um romance contemporâneo que conta a história dos personagens, de suas famílias e de seus relacionamentos, traça um perfil psicológico de cada um (há capítulos, por exemplo, que são narrados por Patty e outros são narrados em terceira pessoa trazendo um panorama de cada um dos envolvidos na trama).

Quase nunca isso me acontece, mas esse livro me deixou com muitas saudades dos personagens, seres humanos comuns, vivendo na sociedade atual, com todas as problemáticas, seja da juventude, seja da passagem para a fase adulta, muito bem demonstradas pelo Autor. Não tem como não se identificar com alguns dos problemas enfrentados por eles, as dúvidas, as frustrações, as emoções vividas, a tentativa de acertar, mas sem se saber se o acerto apontado pela sociedade é aquilo que realmente nos move internamente, nos basta como seres complexos que somos.

Além disso, Franzen faz uma crítica social muito forte. Traz algumas questões ambientais muito importantes (Walter é um personagem muito idealista com relação ao meio ambiente e o crescimento populacional), traz questões ligadas à aceitação social do indivíduo, ao consumismo desenfreado na sociedade capitalista, à luta pela sobrevivência na conjuntura social atual, às crises familiares pela concorrência externa de uma sociedade competitiva que influencia no interior das famílias.  Há, também, questões políticas, como algumas motivações escusas para a invasão do Iraque e a crise do governo americano após o fatídico onze de setembro.

Há também o amor. A tentativa do Autor de manifestar a sua visão do amor e de como ele é construído por anos, às vezes sem percebermos. A história de amor dos personagens principais é bem comovente. O amor em suas diversas facetas: pela família, pelos amigos, pelos companheiros… O que realmente esperamos do amor? Será que necessariamente o amor é aquilo que nos completa ou aquilo que nos torna mais livres?

E, afinal, o que realmente é ser livre na sociedade contemporânea? Somos livres para pensar, para adquirir bens, para amar quem quisermos? Até que ponto esse direito altamente buscado pelo liberalismo, de primeira geração, foi conquistado? Afinal, o que é a liberdade?

Talvez, nas entrelinhas, Jonathan Franzen, indique os caminhos do que para ele é ser livre. E, acima de tudo, nos traz de forma graciosa histórias de personagens vivos, reais, aquele que mora ali do lado, aquele que está aqui dentro, buscando a felicidade almejada, tão distante e tão perto.

Alguns trechos fantásticos do livro:

“Ainda assim, a sensação de injustiça se transformou num desconforto físico. Até mesmo mais real, de certa forma, que seu corpo dolorido, malcheiroso e suarento. A injustiça tinha uma forma, um peso, uma temperatura e uma textura, e um gosto medonho.” (p. 55)

“De onde vinha a pena de si mesma? E daquele tamanho descomunal? Segundo praticamente qualquer padrão, ela tinha uma vida muito boa. Todo dia, tinha o dia inteiro para encontrar algum modo decente e satisfatório de viver, mas ainda assim tudo que parecia conseguir com todas as suas escolhas e toda s sua liberdade era mais sofrimento. A autobiógrafa se vê quase forçada à conclusão de que tinha pena de si mesma por ser tão livre.” (p. 198)

“Os valores, quando ele tornou a fazer as contas por algum tempo mais tarde, lhe trouxeram uma estranha satisfação ressentida. Há dias tão ruins na vida que só quando pioram, só quando degeneram numa verdadeira orgia de infelicidade, podemos achar que foram de algum modo resgatados. ”  (p. 372)

Sem dúvidas, Tremor entrou para minha lista de leituras do ano. Graças a Jonathan Franzen e sua narrativa envolvente!

Murros no crânio! Não deixem de ler essa obra.

(Rose)

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Livro: Divergente

Autora: Verônica Roth

Editora: Rocco

Classificação: Sacudida no crânio (2/5 estrelas)

Preço: R$26,13 (Livraria Saraiva)

 Sinopse

Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto. A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é. E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.

Resenha:

Digam o que disserem, esse livro está com classificação ótima no Skoob, best-seller, fenômeno na internet, mas não me conquistou. A premissa é interessante. Trata-se de uma distopia: a sociedade futurista dividir-se-ia em cinco facções (Amizade, Abnegação, Erudição, Franqueza e Audácia), originadas após uma suposta guerra, e os jovens, ao completarem dezesseis anos, poderiam optar por uma das facções para seguirem suas vidas, mesmo que tivessem crescido em outra. A protagonista é Tris (Beatrice), na idade fatídica e com dúvidas sobre qual facção seguir, até descobrir em seu teste de aptidão que se trata de uma divergente, enquadrando-se no perfil de três das facções disponíveis.

A partir daí a trama se inicia, com uma pitada de romance, algumas intrigas, amizades e a tentativa da protagonista de conquistar o seu espaço na facção escolhida.

Não sei se a trama não me cativou por algum motivo específico, mas senti uma personagem principal um pouco forçada, não conseguia sentir as emoções de Tris na narrativa (algo que geralmente acontece).

A história não me surpreendeu. Algumas revelações finais acerca de seus pais, de seu par romântico (Quatro) e de outros personagens não foram novidade. Achei até bem previsíveis. E não gostei nem um pouco dos diálogos. Não sei se esse problema é da tradução para o português, mas os diálogos eram estranhos, sem sal, eu até diria fracos.

Se eu pudesse resumir em uma frase as minhas impressões sobre Divergente, eu diria que definitivamente a narrativa não me convenceu (considerada em seu conjunto: a distopia, os personagens, a problemática). A tentativa de passar alguma mensagem acerca das escolhas dos personagens, da existência de pessoas que preferem a abnegação à amizade, etc., na minha concepção tornou o enredo um pouco forçado…

Uma sociedade dividida em virtude de características prevalecentes na espécie humana, consideradas todas as suas complexidades, não me parece uma boa idéia. E a construção da Autora em torno disso, no intuito de ressaltar porque “fulano” pertence à franqueza (sim, porque é sincero demais), ficou tão cansativa…

Vou lhes dar um exemplo:

Diálogo de Tris (pertencia à Abnegação) e Christina (pertencia à Franqueza) (pag.: 89):

“-Perguntei se você se lembra de ter freqüentado alguma aula comigo – diz ela. – Não leve isso a mal, mas eu provavelmente não me lembraria de você mesmo que a gente tivesse. Para mim, todo mundo da Abnegação tinha a mesma aparência.(…) – Chris

Eu a encaro. Ela não precisava me lembrar disso. – Tris

– Desculpe, estou sendo mal educada? – pergunta ela. – Estou acostumada a simplesmente falar o que me vem à cabeça. (…)” – Chris

Vejam como é importante ressaltar que Chris é sincera demais porque pertencia à Franqueza. E isso ocorre no livro inteiro.

Ademais, vejam a observação da Tris, “ela não precisava me lembrar disso”, isso também é cansativo. Como é narrado em primeira pessoa, há sempre uma observação óbvia da protagonista, desnecessária, já que o leitor perceberia o que fosse ou não indelicado, no caso, e as demais situações para as quais a escritora pretende chamar atenção. Chato.

Achei o final até que bacana, certamente lerei a seqüência, especialmente para saber os caminhos que serão trilhados a partir de então, mas, confesso que não é um livro que me arrematou, que me deixou pensativa ou incomodada. Pelo menos não o primeiro volume. E também não simpatizei com os personagens. Enfim, podem me apedrejar, acho que sou minoria com relação à série. Assim que ler a continuação posto aqui minhas impressões e se mudei de idéia.

Um gostinho do enredo para aqueles que estão em dúvida quanto à leitura…

 

”- Os que culpavam a agressividade formaram a Amizade. […]

– Os que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição. […]

– Os que culpavam a duplicidade fundaram a Franqueza. […]

– Os que culpavam o egoísmo geraram a Abnegação. […]

– E os que culpavam a covardia se juntaram à Audácia.” – Página. 48

Em 2014 assistiremos a adaptação do livro para o cinema, ótimo para os fãs, nada empolgante para mim…

Dêem uma leve sacudida no crânio com Divergente!

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Livro:  As virgens suicidas

Autor: Jeffrey Eugenides

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$39,50 (Livraria Cultura)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse:

Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.

Resenha

As Virgens Suicidas conta a história de cinco irmãs que se suicidaram (isso não é spoiler, já que o próprio título nos diz) e apesar do quão trágico isso possa parecer, não é apenas um livro trágico, mas um romance muito bem contado, que nos transporta para vizinhança dessas meninas, inserindo-nos na sociedade da época de forma plena. Ao mesmo tempo nos transporta ao íntimo das meninas, ao mundo só delas. Realmente é o típico livro que nos cativa até suas páginas derradeiras.

Talvez isso ocorra um pouco pela curiosidade que o narrador nos incita a respeito da vida das meninas e um pouco pela nossa própria curiosidade em saber as razões dos suicídios.

O texto é narrado, aparentemente, por um dos rapazes pertencentes a um grupo que viveu na vizinhança das meninas Lisbon, agora já em sua fase adulta, e parece uma junção de retalhos, conquistada por meio de entrevistas e pertences antigos das garotas, além das observações da época. Esse grupo parece querer juntar as peças de um quebra cabeças a fim de desvendar as razões das mortes que nunca lhes fizeram sentido.

E é muito bacana ser inserido nesta história. Deparamo-nos com adolescentes dos anos 1970, seus dilemas, a repressão dos pais, os primeiros namoros, o sexo. As meninas Lisbon tinham pais bem severos que lhes cerceavam a liberdade necessária para uma adolescência normal. Isso fazia com que todos os meninos, ou a maioria deles, cultivassem uma curiosidade transmudada em amor platônico pelas garotas. Esses meninos, como disse, cresceram e se tornaram homens que carregaram consigo as dúvidas da infância e adolescência, especialmente pela morte trágica de todas as Lisbon.

Os suicídios iniciam-se com o de Cecilia, a primeira e aparentemente a única perturbada do grupo e tempos depois todas se vão. O mais interessante é a forma como o Autor abordou essas mortes. Não me pareceu algo pedante, sensacionalista. O modo como elas aconteceram foi narrado de forma bem natural, simples. E parece uma conseqüência lógica das vidas das garotas, trancadas em seus quartos, isoladas dos demais adolescentes, com discos e roupas proibidas, melancólicas.

A narrativa flui muito bem, é um romance poético, cheio de músicas. Podemos até ler esse livro ouvindo sua trilha sonora, descoberta durante a leitura (destaque para So far away – Caroline King, Dear Prudence – Beatles, Time in a Bottle– Jim Croce) e aí sim estaremos completamente inseridos na vida das Lisbon.

O Autor traz junto com a história, sem dúvida, os questionamentos acerca das motivações de um suicida adolescente, ou de várias meninas suicidas e, num primeiro momento, não conseguimos determinar essas razões. Talvez o Autor deixe para o leitor suas próprias conclusões. Mas também traz algumas críticas sociais, como a preocupação com as questões ambientais, com a falência da sociedade em que as meninas viviam, em muitos sentidos, a qual está intimamente ligada ao falecimento dessas garotas. É bem reflexiva esta história, muito bonita e melancólica como as Lisbon.

Trago um trecho, como sempre, para demonstrar a forma como o Autor a conta.

“Elas nos fizeram participar de sua própria loucura, porque não conseguíamos deixar de refazer seus passos, repassar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia até nós. Não conseguíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a tranqüilidade. E tivemos que esfregar os focinhos nos últimos rastros que elas deixaram, as marcas de lama no chão, as malas que serviram de degrau, tivemos de respirar para sempre o ar dos cômodos onde elas se mataram.” (p. 178 – Kobo)

O livro foi adaptado para o cinema em 1999, filme com o mesmo título dirigido por Sofia Coppola e estrelado pela linda Kirsten Dunst e dizem que o filme é bem fiel ao livro. Ainda não assisti, mas pretendo fazê-lo e coloco minhas impressões nos comentários.

Alguns murros no crânio, ingressem no mundo das Lisbon e tomem pelo menos cinco!

 (Rose)

 

ImageLivro:  O oceano no fim do caminho

Autor: Neil Gaiman

Editora: Intrínseca

Preço: R$18,90 (Submarino)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse:

“As pessoas pensam que sonhos não são reais apenas porque não são feitos de matéria, de partículas. Sonhos são reais, mas eles são feitos de pontos de vista, de imagens, de memórias e trocadilhos, e de esperanças perdidas.”Neil Gaiman

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo.

Resenha

O Oceano no Fim do Caminho é uma fábula extraordinária e reflexiva. O personagem principal (o qual não tem nome) passava por um dia difícil, um ente havia falecido e resolve mudar o caminho, trilhar em direção à sua antiga moradia e à antiga estradinha rural que o levaria à fazenda das Hempstock.

Ali, o personagem reencontra a sua infância, defronte ao lago da fazenda e são essas lembranças que tomarão toda a narrativa. A história é narrada em primeira pessoa e tem seu ponto inicial com a morte de um minerador de opala para o qual o pai do menino havia alugado um quarto de sua casa. Esse homem comete suicídio e a partir dessa morte uma criatura é provocada e invade a vizinhança, tentando dar aos homens dali aquilo que eles mais desejam.

Nesse contexto, conhecemos a família Hempstock, uma família de mulheres, representada pela menina Lettie, sua mãe e avó. Essas mulheres, aparentemente, tem dons especiais: são sensitivas, percebem as criaturas não humanas que existem na natureza. De alguma forma, a criatura entrará na vida do protagonista e teremos um grande conto de fadas, misturado à realidade da infância do personagem, tudo do ponto de vista de uma criança de sete anos.

É parcialmente uma autobiografia de Neil Gaiman, contada por meio de fábula, o que nos leva a admirar a forma como ele trouxe problemáticas de sua infância de uma forma tão mágica, por meio de uma fantasia muito bem contada. Sentimos os medos de infância de Gaiman, percebemos os problemas dele como adulto, a partir da forma adulta do personagem, mas ao mesmo nos deparamos com uma história doce, fantástica, leve. Conhecemos o menino Gaiman, apaixonado pela leitura, introspectivo, sem amigos, mas com uma imaginação exemplar e cheio de sonhos.

É realmente um livro obrigatório. Especialmente àqueles que gostam dessa mistura entre fantasia e realidade e dos questionamentos que ela nos traz. O mundo visto pela criança é um charme da narrativa. Percebemos o que acontece na vida do garoto, mas isso é passado pelo ponto de vista dele para que tiremos nossas conclusões, o que enriquece a história.

A vida torna-se muito mais bonita se alicerçada por nossos sonhos. Porque muitos deles são deixados para trás quando nos tornamos adultos. Mas mal sabemos que somos adultos cheios de medos, sonhos e fantasias de criança escondidos em algum lugar dentro de nós. Basta busca logo ali e trazer a beleza de volta. Sem dúvida um dos melhores do gênero que já li. Encanto por Gaiman!

Trechos escolhidos, com muita dificuldade porque são inúmeros os trechos que gostaria de transcrever aqui…

“Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu.  As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.” (p. 129)

“Ela chorava e aquilo me deixou constrangido. Eu não sabia o que fazer quando os adultos choravam. Era algo que só tinha visto duas vezes na vida: eu vi meus avós chorarem quando minha tia morreu, no hospital, e vi minha mãe chorar. Eu sabia que os adultos não deveriam chorar, eles não tinham mães que os consolassem.” (p. 141)

“Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer nas coisas pequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual vivia, não podia fugir de coisas nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinha prazer nas coisas que me deixavam feliz.” (p. 169)

Murro no crânio! E voltem com a simplicidade que impregnar nele! Leiam O Oceano no Fim do Caminho.

(Rose)