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Livro:  As virgens suicidas

Autor: Jeffrey Eugenides

Editora: Companhia das Letras

Preço: R$39,50 (Livraria Cultura)

Classificação : Murro no crânio

Sinopse:

Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida.

Resenha

As Virgens Suicidas conta a história de cinco irmãs que se suicidaram (isso não é spoiler, já que o próprio título nos diz) e apesar do quão trágico isso possa parecer, não é apenas um livro trágico, mas um romance muito bem contado, que nos transporta para vizinhança dessas meninas, inserindo-nos na sociedade da época de forma plena. Ao mesmo tempo nos transporta ao íntimo das meninas, ao mundo só delas. Realmente é o típico livro que nos cativa até suas páginas derradeiras.

Talvez isso ocorra um pouco pela curiosidade que o narrador nos incita a respeito da vida das meninas e um pouco pela nossa própria curiosidade em saber as razões dos suicídios.

O texto é narrado, aparentemente, por um dos rapazes pertencentes a um grupo que viveu na vizinhança das meninas Lisbon, agora já em sua fase adulta, e parece uma junção de retalhos, conquistada por meio de entrevistas e pertences antigos das garotas, além das observações da época. Esse grupo parece querer juntar as peças de um quebra cabeças a fim de desvendar as razões das mortes que nunca lhes fizeram sentido.

E é muito bacana ser inserido nesta história. Deparamo-nos com adolescentes dos anos 1970, seus dilemas, a repressão dos pais, os primeiros namoros, o sexo. As meninas Lisbon tinham pais bem severos que lhes cerceavam a liberdade necessária para uma adolescência normal. Isso fazia com que todos os meninos, ou a maioria deles, cultivassem uma curiosidade transmudada em amor platônico pelas garotas. Esses meninos, como disse, cresceram e se tornaram homens que carregaram consigo as dúvidas da infância e adolescência, especialmente pela morte trágica de todas as Lisbon.

Os suicídios iniciam-se com o de Cecilia, a primeira e aparentemente a única perturbada do grupo e tempos depois todas se vão. O mais interessante é a forma como o Autor abordou essas mortes. Não me pareceu algo pedante, sensacionalista. O modo como elas aconteceram foi narrado de forma bem natural, simples. E parece uma conseqüência lógica das vidas das garotas, trancadas em seus quartos, isoladas dos demais adolescentes, com discos e roupas proibidas, melancólicas.

A narrativa flui muito bem, é um romance poético, cheio de músicas. Podemos até ler esse livro ouvindo sua trilha sonora, descoberta durante a leitura (destaque para So far away – Caroline King, Dear Prudence – Beatles, Time in a Bottle– Jim Croce) e aí sim estaremos completamente inseridos na vida das Lisbon.

O Autor traz junto com a história, sem dúvida, os questionamentos acerca das motivações de um suicida adolescente, ou de várias meninas suicidas e, num primeiro momento, não conseguimos determinar essas razões. Talvez o Autor deixe para o leitor suas próprias conclusões. Mas também traz algumas críticas sociais, como a preocupação com as questões ambientais, com a falência da sociedade em que as meninas viviam, em muitos sentidos, a qual está intimamente ligada ao falecimento dessas garotas. É bem reflexiva esta história, muito bonita e melancólica como as Lisbon.

Trago um trecho, como sempre, para demonstrar a forma como o Autor a conta.

“Elas nos fizeram participar de sua própria loucura, porque não conseguíamos deixar de refazer seus passos, repassar seus pensamentos, e ver que nenhum deles conduzia até nós. Não conseguíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a tranqüilidade. E tivemos que esfregar os focinhos nos últimos rastros que elas deixaram, as marcas de lama no chão, as malas que serviram de degrau, tivemos de respirar para sempre o ar dos cômodos onde elas se mataram.” (p. 178 – Kobo)

O livro foi adaptado para o cinema em 1999, filme com o mesmo título dirigido por Sofia Coppola e estrelado pela linda Kirsten Dunst e dizem que o filme é bem fiel ao livro. Ainda não assisti, mas pretendo fazê-lo e coloco minhas impressões nos comentários.

Alguns murros no crânio, ingressem no mundo das Lisbon e tomem pelo menos cinco!

 (Rose)